Percepção de Valor de Softwares

15 F Y

Recentemente comprei em uma promoção na Steam 7 títulos da série GTA: GTA, GTA2, GTA3, GTA Vice City, GTA San Andreas, GTA IV e GTA Episodes From Liberty City. Todos juntos me custaram, com dólar convertido a uma cotação não muito boa, R$ 23,08. Eu não esqueci nenhum “0”, foram vinte e três reais e oito centavos mesmo. Fiquei realmente feliz, vários destes jogos marcaram minha adolescência, e chego a dizer inclusive que perambular por Vice City, Liberty City e pelo mundo enorme retratado em San Andreas me ajudaram a ter um ótimo senso de localização, ao ponto de ser difícil eu me perder em algum lugar (do mundo real), mesmo que o conheça muito pouco.

Daí, três fins de semana depois, fui convidado para o aniversário de um amigo. Sem beber pois estava dirigindo, torrei em 3 horas R$ 27,00, com coca-cola e alguns (poucos) petiscos. Quem estava na cerveja ou no whisky chegou a pagar mais de R$ 50,00. No outro dia, saí com minha namorada e duas amigas dela que estavam de passagem aqui em Recife para um bar mexicano. Novamente sem beber, apenas duas coca-colas e um taco, lá se vão outros R$ 27,00 em duas horas.

Chegando em casa, entrei na Steam para botar um dos GTAs para baixar, e sou recebido com uma mensagem avisando de uma promoção de F12011 + Dirt3 por US$ 29,99, 70% de desconto em relação ao preço original. Isso daria, com uma cotação novamente não muito boa, aproximadamente R$ 54,00. Por dois jogos. Dois jogos BONS e suficientemente novos. De corrida, um tipo de jogo que eu realmente curto. Eu os teria por um bom tempo, e com certeza passaria dias e dias me divertindo. Mas meu pensamento imediato foi “não tenho grana pra isso agora não”.

Fui pra cama e isso começou a martelar em minha cabeça. Eu havia acabado de gastar naquele mesmo fim de semana o mesmo valor que aproximadamente eu gastaria para comprar os jogos. Não me senti “mal” nem totalmente desconfortável de pagar R$ 27,00 em cada um dos bares em que passei pouquissimo tempo, mas rejeitei de primeira  a idéia de comprar dois jogos que durariam por uma eternidade e meia… Isso me incomodou bastante (mas não o suficiente para comprar os jogos…), e comecei a pensar nessa situação.

Não estou desmerecendo o trabalho e o custo que os restaurantes e bares têm, por favor me entendam corretamente. Minha questão não é dizer que eles foram caros, e sim que software em geral não é visto (mesmo por quem é da área, desenvolve e sabe o trabalho desgraçado que dá fazer algo com qualidade), como algo que se vale a pena gastar dinheiro. É impressionante, e por vezes revoltante, ver developer que vai pra restaurante caro, balada mais cara ainda, pirateando jogo. Ambas são formas de diversão, mas é muito mais difícil ver gente tentando sair de restaurante sem pagar do que obtendo jogo de formas obscuras.

Quando levamos isso para outras áreas, aí é que fica complicado mesmo. Muita gente acha R$ 150,00 numa licença de OS (que você literalmente usa o tempo todo) caro, suite de produtividade, edição de imagens e outras ferramentas profissionais por valores entre R$ 300 e R$ 1.000 são considerados absurdos. Empresas de desenvolvimento de software customizado sofrem com propostas absurdas de clientes querendo sistemas complexos a preço de banana, ou alterações em sistemas já existentes de graça ou muito perto disso, pois “é só criar uma telinha nova”. Seguindo na mesma linha anterior, é difícil ver gente tentando roubar serrote, máquinas industriais e outras ferramentas de trabalho, ou pedindo pra uma empresa de engenharia construir um “puxadinho” no seu negócio de graça… É difícil para a maioria das pessoas entender que algo que elas não podem “pegar”, e que parece ser tão pequeno, tem um custo alto para ser produzido.

Como estava discutindo com alguns amigos recentemente, as pessoas não veem que software e TI em geral não são apenas custo, e sim investimento. Um software de R$ 12.000,00 pode (já ví isso acontecer) fazer em um dia o seu usuário ter um faturamento de R$ 150.000,00, numa situação em que sem o mesmo software, o valor faturado não teria sido nem a metade de acordo com dados históricos do cliente. Redes de lojas tem seu processo absurdamente otimizado com o uso de um sistema bem projetado de acordo com o seu negócio, aumentando a agilidade nas vendas, lucro e talvez até a satisfação do cliente, mas ainda assim muitas delas consideram TI como um gasto incômodo, apenas uma “obrigação formal”.

Enquanto nós mesmos que somos da área não valorizarmos nosso trabalho e o de nossos pares, acredito que vai ser complicado mudar esta percepção para o resto do mundo.

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